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“Além da linha amarela” – artigo de Jeanine Rolim (Concurso Cultural Futuro Eventos e Editora Melo – Dia Nacional da Alfabetização)


Aprender a escrever pode ser uma linda aventura ou um estágio no front de batalha. Lembro-me de, na extinta pré-escola, ter feito um esforço descomunal na tentativa de lembrar qual das 23 letras era a bendita “E”, que a professora ditara. Quando, enfim, uma vaga memória visual surgiu, rapidamente a escrevi no interminável caderno de caligrafia. Este tinha lindas linhas amarelas que serviam de trilhos para que as vogais lhes fossem internas e as consoantes as transpassassem.

Ainda empolgada por ter lembrado, avistei com o canto dos olhos a figura da professora parada ao meu lado, com uma expressão de profunda decepção, quando lhe ouvi dizendo “Essa é a letra ‘L’ Jeanine. Eu ditei a ‘E’! Não sabe a diferença?” Embora a resposta pudesse ter sido um sonoro não, obviamente que não o usei. Em lugar disso, peguei a borracha e apaguei o meu tão grave e imperdoável erro. Como qualquer criança, ainda escrevia com traço demasiadamente firme, o que estendera a tarefa de apagar a ponto de a professora passar uma vez mais por minha carteira em sua ronda. Como já se supunha, ela me recriminou pela “borradeira”, criticando-me árdua e publicamente pela perda da cor amarela da linha. A linha sumira.

Na constante busca pelo acertar, apesar da imaturidade infantil, apanhei um lápis de cor amarela e pus-me a devolver aquilo cuja perda tanto a havia enfurecido: a cor da linha. Ao ser flagrada em meu delito criativo, fui novamente humilhada diante de meus colegas, pois, agora, o traçado do grafite não “pegava” sobre o lápis de cor amarela. Quase desisti da pesada aventura do aprender.

Ao voltar para casa, e já bem longe das rondas, vi minha mãe lendo um enorme livro de capa preta. Sua feição transmitia-me muito mais que quaisquer linhas amarelas poderiam revelar-me. Meu irresistível desejo era saber o que elas – as letras – lhe diziam a ponto de deixá-la reluzente. Desistir já não era mais uma opção. Lancei-me no colo de minha mãe, leitora assídua, amante das letras e da arte de ensinar. Ali, dia após dia, apaixonei-me pelo mundo da leitura e da escrita… Alfabetizei-me. Aprender já não era pesado. A diferença entre um “E” e um “L” já não era a questão principal. Por trás das letras surgiam mundos, moviam-se personagens, formavam-se histórias…

Assim como minha mãe, excelentes alfabetizadores seguem instigando e incentivando crianças a se apaixonarem pelo mundo das letras. Professoras e professores comprometidos não só com o currículo, mas com o incomensurável poder transformador da educação. Educadores que questionam, sem medo, suas verdades e práticas, pois anseiam crescer e ajudar outros a fazê-lo. Perguntam-se, intrepidamente, quais são os limites que os têm sufocado.

Os verdadeiros alfabetizadores são aqueles que sabem que alfabetizar está muito além de ensinar um conjunto de letras, fonemas e grafias. Eles sabem que alfabetizar é, por si só, transpor limites. É dar asas e ensinar como usá-las. É ir além da linha amarela. Feliz dia da alfabetização!

Jeanine Rolim – Alfabetizadora, pedagoga e estudante de psicologia. Professora de séries iniciais e apaixonada por ensinar.
jeaninerolimm@yahoo.com.br

 

O artigo Além da linha amarela foi o vencedor do Concurso Cultural Futuro Eventos e Editora Melo – Dia Nacional da Alfabetização. A organização, juntamente com as especialistas da área que analisaram os textos enviados, elegeram apenas 01 artigo, uma vez que os demais não atingiram os critérios técnicos e/ou científicos sobre o tema. O conteúdo do artigo vencedor é de inteira responsabilidade da autora, não representando, necessariamente, a opinião da organização do Concurso ou dos especialistas que participaram da análise.

 

11 Comentários para ““Além da linha amarela” – artigo de Jeanine Rolim (Concurso Cultural Futuro Eventos e Editora Melo – Dia Nacional da Alfabetização)”

  1. Parabéns, Jeanine e Editora Melo.

    Um texto leve, capaz de nos levar a algum lugar no tempo quando nos deparamos com o incrível desafio de entender o que existia além daquelas letras.

    Felizmente, a curiosidade infantil e a vocação passional de quem gosta de ler e ensinar têm superado decepções, impaciências e outras imperfeições didáticas.

    Viva a alfabetização!

  2. Texto maravilhoso, mereceu o primeiro lugar. Parabéns à autora e a voces da editora Melo que organizaram o evento
    Abraços
    André

  3. Jeanine: Na abordagem deste texto é muito significante a superação dos limites no ato de alfabetizar.
    Você conseguiu definir a importância de uma trajetória livre, visionária, sem os trilhos que amarram, obrigam a seguir sempre o mesmo caminho, desprezando o conhecimento já adquirido pelo aluno, além da sua capacidade de ousar na aquisição da leitura e escrita.
    Parabéns!

  4. Parabéns!
    Muito bom mesmo!

  5. Parabéns Janine pelo excelente texto, que nos passa uma enorme sensibilidade. Sucesso.

  6. Mesmo nome,mesma paixão por escrever…
    Quem sabe um dia nos conhecemos.
    Parabéns! Texto maravilhoso!

  7. Obrigada pessoal!!!

  8. Jeanine, seu texto é leve, profundo, direto e agradável de ler. Digno de ser comparado aos textos de nossos grandes escritores brasileiros. Ao lê-lo fiquei imaginando a dedicação de sua mãe e sua alegria em ver a filha descortinando um novo mundo. Todo o esforço teve resultado, você não só aprendeu a ler e a escrever como se tornou uma escritora de muita qualidade. Gostaria que esse artigo fosse apenas o primeiro de muitos que virão para nos deliciar. Sucesso! Você merece. Abraços,
    Marcos Meier

  9. linda descrição da sua paixão pelo ensinar!

  10. Triste saber que nossos pequenos, hoje não conhecem além da linha amarela. Parabéns pelo texto.Sueli Sampaio Dotti

  11. A autora consegue transmitir em seu artigo o espírito da alfabetização em toda a sua essência. Parabéns a autora por sua sensibilide em tratar de tema tão importante e atual na missão educativa. Aguardo por novos artigos seus. Roberto Belotti.

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