Aprender a aprender na escola: por quê? como? quando?



Ariana Cosme e Rui Trindade
É face às exigências políticas, sociais e culturais do mundo em que vivemos que temos que abordar o trabalho educativo nas escolas em função de outras finalidades, de um outro tipo de organização do trabalho pedagógico na sala de aula e de outras estratégias de mediação didática. O desafio é exigente, complexo e diversificado. Explica-se, em larga medida, pelo fato de se reconhecer que os alunos terão de ser estimulados a assumir um maior protagonismo como atores educativos, nomeadamente ao nível da gestão do processo de ensino e de aprendizagem que lhes diz respeito. Um objetivo cuja operacionalização coloca os professores perante problemas diversos, na medida em que não são, apenas, a melhoria das condições logísticas de trabalho nos contextos escolares, a mobilização de outros recursos educativos ou o alargamento do campo das experiências a viver pelos alunos que garantem, só por si, que tal objetivo se concretize. Não basta, também, acrescentar novas oportunidades educativas às oportunidades educativas já existentes para se mudar o que quer que seja. O que importa é, afinal, fazer com que as situações e as experiências já vividas nas escolas se constituam, de fato, como oportunidades capazes de proporcionar situações de desenvolvimento pessoal, social e cultural dos alunos.

É esta finalidade que justifica a publicação deste livro, através do qual se propõe uma reflexão e um conjunto de atividades que contribuam para que os alunos se possam autonomizar progressivamente como aprendentes seja em termos cognitivos, estratégicos e culturais, aprendendo a aprender. Finalidade esta que tanto corresponde a uma necessidade da vida das pessoas nas sociedades contemporâneas, como responde aos estudos que, no domínio da metacognição, acentuam o papel da autorregulação como um fator decisivo que permite sustentar a ocorrência de aprendizagens significativas e o desenvolvimento, concomitante, de competências de autoaprendizagem que contribuem para que os alunos possam se tornar mais capazes de definir estratégias, de refletir sobre estas, sobre os recursos e sobre as tarefas que irão permitir resolver os desafios e os problemas com que se defrontam, o que, entre outras coisas, favorece o seu desenvolvimento e afirmação como pessoas num mundo mais contingente e imprevisível.

Este é um livro que, a pretexto da necessidade de os professores contribuírem para o desenvolvimento das competências cognitivas, metacognitivas, estratégicas e instrumentais dos alunos no domínio da autoaprendizagem, se encontra organizado em função de uma reflexão inicial sobre o conceito de metacognição e sobre as implicações do mesmo quanto ao modo como afeta o modo de definir o que se entende por aprendizagem significativa e por motivação escolar, explorando-se depois a articulação que se estabelece entre o conceito de metacognição e as funções cognitivas que designamos por memória e inteligência. Trata-se de uma tentativa de refletir sobre o objetivo educativo que as iniciativas relacionadas com o desenvolvimento das competências de autoaprendizagem dos alunos constituem. Iniciativas que, posteriormente, serão objeto de discussão tanto a partir  de uma investigação sobre programas relacionados com o desenvolvimento de estratégias metacognitivas. como de uma brevíssima reflexão sobre a experiência portuguesa construída em torno da Área de Estudo Acompanhado, a qual permite discutir algumas das tendências, interrogações e equívocos que terão de ser tidos em conta no âmbito do processo operacionalização das iniciativas pedagógicas que se relacionam com o desenvolvimento das já referidas competências de autoaprendizagem dos alunos. Configurou-se, assim, o espaço conceitual necessário para se poder explicitar quer os tipos de compromissos pedagógicos que permitem sustentar um tal projeto, quanto o papel que os professores podem assumir neste âmbito, e também, finalmente, as dimensões pedagógicas estruturantes que configuram aquelas iniciativas, bem como alguns dos princípios genéricos que permitem contribuir para a operacionalização de um projeto no domínio e causa.

Será na segunda parte desta obra que apresentaremos as atividades que poderão servir de referência ao trabalho dos professores como agentes capazes de promover iniciativas no domínio da promoção das competências de autoaprendizagem dos seus alunos, as quais se encontram subdivididas em cinco grupos identificados como:

a) O grupo das atividades relacionadas com a planificação do estudo;

b) O grupo das atividades relacionadas com a abordagem e o tratamento da informação escrita;

c) O grupo das atividades relacionadas com a abordagem e o tratamento da informação na área da Matemática;

d) O conjunto de instrumentos de organização e autorregulação do quotidiano das salas de aula.

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