Escola, formação de professores e qualidade de ensino


Francisco Imbernón

A mudança, que tanto entusiasmo e tantas adesões congregou em todos os países ao final da década dos anos oitenta e princípios dos anos noventa, onde se aplicaram muitas reformas educativas, está se incorporando paulatinamente ao papel escrito e às declarações públicas como um lugar comum, mas que dificilmente se vê transladado à realidade da prática da educação. Uma verdadeira mudança não pode ser concebida seriamente sem possuir um novo conceito e uma nova mentalidade de ver a profissão docente, sem definir uma nova política educativa e nem sem levar em conta as necessidades pessoais e coletivas dos professores. E isso supõe quebrar certas inércias e ideologias institucionais e políticas que levam a determinadas políticas conservadoras ou neoconservadoras as quais têm perdurado, ainda que seja parcialmente, durante muitos anos.

E a escola deve mudar, deve converter-se em algo verdadeiramente educativo e superar seu conceito do século XIX já obsoleto. Ao outorgar um caráter educativo queremos nos distanciar de enfoques técnicos e burocratizantes de qualidade, tão em moda nos últimos anos, na aplicação de determinados modelos de qualidade provenientes do mundo empresarial, como se as crianças fossem objetos de uma fábrica e os professores suas máquinas. Eu gostaria de me aproximar pelo contrário ao seu caráter cultural e educativo, e, dentro das possibilidades, no educativo, em uma determinada comunidade de prática entre professores, de formação mediante processos (comunidade formativa) de pesquisa-ação, de indagação, de projetos de inovação, de que esse dinamismo cultural transforme os saberes e as consciências – e a estética – dos que intervimos na organização da vida e do trabalho nas escolas. Sugerimos falar da escola não tanto como “um local” que pode ser diagnosticado friamente com protocolos de qualidade, mas sim como uma manifestação de vida em toda sua complexidade, em toda sua rede de relações e dispositivos com uma comunidade educativa, que mostra um modo institucional de conhecer e de querer ser.

Portanto, se queremos falar de qualidade, primeiro temos que analisar o que é que tem sido mudado durante estes últimos vinte anos que repercutem na formação e no ensino:

• Um incremento acelerado e uma mudança vertiginosa nas formas que adota a comunidade social, no conhecimento científico e nos produtos do pensamento, da cultura e da arte.

• Uma evolução acelerada da sociedade nas suas estruturas materiais e institucionais, formas de organização da convivência, modelos de família, de produção e de distribuição, que se refletem na mudança inevitável das atuais maneiras de pensar, sentir e agir das novas gerações.

• Alguns contextos sociais que condicionarão a educação e evidenciarão uma série de forças em conflito. As vertiginosas mudanças dos meios de comunicação e tecnológicos têm sido acompanhadas de profundas transformações na vida pessoal e institucional de muitas organizações, e têm colocado em crise a transmissão do conhecimento e, portanto, também suas instituições.

• Uma análise da educação que já não a considera patrimônio exclusivo dos professores, senão de mais profissionais, da rede, e de toda a comunidade e dos meios de que esta dispõe, estabelecendo novos modelos relacionais e participativos na prática da educação.

• Uma sociedade multicultural e multilíngue onde o diálogo entre culturas será uma riqueza para a diversidade e onde será fundamental viver na igualdade e conviver na diversidade.

• Uma desregularização do Estado com uma lógica de mercado.

• Com elementos novos, como a aparição da nova economia, a tecnologia que desembarca com grande força na cultura, a globalização que se faz patente, etc.

• Os processos e os meios educativos não funcionam completamente, os edifícios não são adequados para uma nova maneira de ver a educação, assume mais importância a formação emocional das pessoas, a relação entre elas, a comunidade como elemento importante da educação.

• E o auge do “quarto mundo”, zonas de uma grande “neomiséria”  ou pobreza endêmica.

Tal como a sociedade, o âmbito laboral e profissional muda muito rapidamente. Nos últimos tempos se tem questionado muitos aspectos que, até esse momento, eram indiscutíveis. Vemos como se tem questionado a formação estritamente disciplinar dos currículos e como estes têm sido completados com outros aspectos éticos, escolares; tem-se começado a dar importância à bagagem sociocultural, como pode ser a comunicação, o trabalho em grupo, a tomada de decisões, etc. E isso será muito importante para a qualidade educativa.

Mas, o que significa isso tudo para a mudança na qualidade do ensino?

Em primeiro lugar, e como aspecto básico, considerar a experiência pessoal e profissional dos professores, de suas motivações, do meio de trabalho (em suma, de sua situação de trabalhador) e, por outra parte, a participação dos professores na educação e na tomada de decisões que lhes afetam diretamente. Os que participam na educação devem poder beneficiar-se de uma formação de qualidade que se ajuste às suas necessidades profissionais em contextos sociais e profissionais em evolução e que repercuta na qualidade do ensino. Se a formação é de qualidade (adequada aos professores e ao contexto) o ensino tem mais possibilidades de ser ensino.

Mas o conceito de qualidade não é estático, não há consenso sobre seu conceito nem existe um único modelo de qualidade já que depende do conceito da escola e do ensino. Durante muito tempo, e por vir do mundo produtivo, a qualidade tem sido interpretada como conceito absoluto, próximo às dimensões de inato e atributo de um produto. Será um produto a educação que trabalha com sujeitos?

Das diferentes aproximações ao conceito de qualidade encontramos:

- Como excelência inata (comparação entre objetos)

- Baseada em atributos mensuráveis (produto)

- Como compendio de requisitos (fabricação)

- Em termos de execução/preço (valor) ou otimização de recursos.

Para mim, a qualidade no campo educativo se analisa desde a consciência do aluno, de como percebe a qualidade, mas diferentemente de posturas conservadoras que introduzem indicadores de rendimento ou protocolos de diagnóstico fechados para comprovar a qualidade de um processo, vejo a qualidade como uma tendência, como uma trajetória, como um processo de construção contínuo.

Hoje em dia existe o perigo de realizar análises simples e lineares, dados os condicionantes de intencionalidade, de contexto, de interesses e de valores que conformam o significado da qualidade e das expectativas que suscitam. Acreditamos que nenhuma delas é completamente válida na educação, exceto que a qualidade é conveniência para propor, ou seja, a qualidade é unicamente definida pelos olhos do grau de satisfação da comunidade, mas não unicamente como resposta à demanda social, e sim como um processo cheio de complexidade e ambiguidade já que está impregnado de valores.

A qualidade da escola depende da qualidade dos alunos através de suas contribuições à sociedade, à qualidade do que se tem aprendido e a forma de aprender. Para isso é importante a efetividade da educação, a apropriação de aprendizagens flexíveis e adequadas à mudança e à transmissão dessa aprendizagem. A qualidade não está unicamente no conteúdo senão na interatividade do processo, a dinâmica do grupo, o uso das aditividades, o estilo do professor/a, o material que se utiliza.

Este livro pretende analisar um pouco de tudo isso. Coloco nele minhas ideias expressadas em outros textos, sobretudo artigos. Textos avulsos dos últimos tempos que o pensamento ordena e atualiza.

Divido-o em duas partes. Na primeira analisamos o professor, a escola e como esta pode aumentar a qualidade do seu ensino para formar homens e mulheres cidadãos, felizes, livres e democráticos. Na segunda parte falamos da formação de professores como essencial na qualidade da educação (o professor é o mais importante na qualidade já que repercutirá na aprendizagem dos alunos) em todos seus âmbitos para ir descendo até aspectos novos como a criação de redes de formação.

Conceitos antigos já não servem para problemas novos. Temos que procurar soluções novas para os problemas novos.

Esperemos que este livro ajude para isso.

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