Todas as aprendizagens são pessoais, mas ninguém aprende sozinho: gerir as salas de aula como comunidades de aprendizagem


Rui Trindade e Ariana Cosme

Entre as condições que se afirmam como necessárias para que os alunos sejam bem sucedidos nas escolas há algumas sobre as quais vale a pena refletir, sobretudo quando se sabe que essas condições não são tão indiscutíveis como usualmente se pretende fazer crer.

A valorização de uma organização de tipo competitivo do trabalho na sala de aula enquadra-se nesta categoria de condições, nomeadamente quando se defende que essa organização é, por um lado, um fator educativo primordial para suscitar um projeto de formação pessoal e social congruente com as necessidades da vida nas sociedades contemporâneas e, por outro, constitui, segundo tal perspectiva, um fator motivacional decisivo para suscitar o investimento dos estudantes nas tarefas de aprendizagem que estes têm que enfrentar. Trata-se de uma perspectiva que constitui, acima de tudo, a expressão de uma concepção possível acerca do ato de aprender que entende este ato como um ato individual que, no entanto, para ocorrer necessita que os estudantes estabeleçam um confronto entre si. É que, segundo D. Johnson e R. Johnson (1999), a organização competitiva do trabalho que possa ter lugar numa sala de aula pressupõe a valorização, neste âmbito, do investimento que os alunos protagonizam para se mostrarem mais rápidos e eficazes que cada um dos restantes colegas face ao conjunto idêntico de tarefas que deverão realizar, o que terá que ser entendido não tanto como uma decisão circunscrita no âmbito da  gestão do processo de ensino-aprendizagem mas, antes, como a expressão de uma das principais finalidades do projeto de formação que exige e justifica um tal tipo de organização do trabalho pedagógico ao nível da sala de aula. Um projeto que, independentemente do peso e da importância que assume, hoje, na configuração das iniciativas educacionais que têm lugar nas nossas escolas, está longe de poder ser entendido como um projeto consensual, dados não só os seus pressupostos ideológicos e pedagógicos que o fundamentam, como, igualmente, as suas implicações políticas, sociais culturais e educativas. Daí que não se possa deixar de perguntar se um tal projeto não é contraditório com os valores que sustentam, em princípio, a vida numa sociedade democrática ou se é compatível a existência de uma sociedade do conhecimento com um projecto de formação que põe em causa e até despreza a colaboração como condição necessária que permite sustentar o desenvolvimento dos processos de aprendizagem, a realização de tarefas que envolvem um esforço comum e, ainda, o próprio processo de construção de saberes.

É o reconhecimento e a afirmação da necessidade de um projeto de formação sujeito a propósitos e a orientações distintos daqueles que acabamos de descrever que explica, assim, o investimento e a valorização no desenvolvimento de um outro tipo de iniciativas que possam estimular a criação de ambientes de aprendizagem cooperativos, enquanto estratégia alternativa aos ambientes de aprendizagem organizados e geridos de forma competitiva.

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