Revista Aprendizagem 23

Capa
Edição 23

A educação transforma ou reproduz a sociedade?
O papel a ser desempenhado pelo aluno como cidadão pode ser definido pela formação que ele recebe na escola. Esse ensino depende da maneira como se leva o conhecimento para a sala de aula: repetindo informações préconcebidas ou estimulando a adaptação e a transformação dos saberes

Que seres humanos a escola está formando? Pessoas que repetem aquilo que já existe ou que produzem novos conhecimentos para transformar a sociedade? O homem, desde que nasce, desenvolve sua capacidade de aprender e de ensinar, transmitindo, mas também produzindo e modificando os conhecimentos e a cultura.

Esta edição da Revista Aprendizagem abordou o tema, buscando resgatar a relação da escola com o desejo de transformação das crianças e jovens de hoje, uma vez que esta instituição pode torná-los capazes de refletir e olhar criticamente para a sociedade em que vivem.

Entre o ensino para a competição e a formação pela emancipação pessoal Desde que a educação passou a ser vista como um instrumento de mobilidade social ascendente, sobretudo para as classes menos favorecidas, a escola tem repercutido na sociedade em termos de crescimento econômico e de melhoria de renda, através de uma maior qualificação dos indivíduos para o mercado de trabalho. Essa educação que prepara o aluno para ser um profissional de qualidade consiste na reprodução de dados e fórmulas preconcebidos que são cobrados como forma de testar o aprendizado. O vestibular é um exemplo claro: quem decora mais conteúdos sai na frente na hora de garantir uma vaga no curso escolhido.

A esse fato se deve grande parte do insucesso escolar nos dias de hoje, que acaba sendo atribuído exclusivamente ao aluno, uma vez que seus pais, ao também reproduzirem os valores ideológicos do discurso da sociedade, que valoriza o estudo como a única forma de obter ascensão social, cobram dos filhos a melhor “performance”, não compreendendo a verdadeira dimensão e complexidade do processo de aprendizado.

Portanto, na década de 90, a educação passou a ser considerada, sobretudo, promotora de competitividade, dando ao indivíduo a condição de empregabilidade e trazendo para a sociedade a modernidade associada ao desenvolvimento sustentável. Diante do processo de globalização e da maior abertura do nosso país ao mercado internacional, a formação de profissionais altamente qualificados pelas universidades, que são responsáveis pela produção científica de ponta e pela produção de novas tecnologias, foi tida como necessária para aumentar nossa competitividade.

Por isso, a educação aliada à ciência e à tecnologia é considerada essencial para formar indivíduos que estejam à altura das exigências do mercado de trabalho. Graças à esse novo papel do trabalhador frente à sociedade globalizada, foi adotada uma nova postura do empregado diante do emprego, e consequentemente do educador frente ao educando.

No entanto, para Nilbo Nogueira, pedagogo, especialista em Psicopegagogia, mestre e doutor em Educação, esse ensino para a competição, que somente reproduz informações, é uma tendência que está com seus dias contados, pois a escola que está atenta ao seu retorno financeiro já deve estar percebendo que tudo que ela oferecia de diferencial, como laboratórios de informática, Internet, infraestrutura, atividades extra-curriculares, etc, também é oferecido pelas instituições concorrentes que estão preparadas para proporcionar esse tipo de formação. Nogueira comenta: “alguns analistas de marketing e de mercado educacional já apontam que o grande diferencial deverá ser o ‘produto’, entendendo-o como o currículo, a metodologia, a didática, os materiais, etc”.

No entanto, diante desse quadro educacional competitivo que já é uma realidade, nossas escolas não tem preparado os alunos de diferentes classes sociais de maneira justa e igualitária para essa “competição”. É exigida uma qualificação profissional que grande parte de nossa população não possui, devido ao ensino precário oferecido aos estudantes das classes menos favorecidas. O ensino público brasileiro ainda tem muito a avançar no sentido de aparelhar as escolas, qualificar seus professores e construir instalações adequadas para o ensino e pleno uso das tecnologias.

Com isso, torna-se preocupante o fato de que aquela criança ou jovem que tem fácil acesso aos meios tecnológicos, por ter poder econômico, virá a ser mais competitivo no mercado de trabalho, enquanto os menos favorecidos, cada vez mais, são submetidos a um descompasso com as inovações tecnológicas.

Embora a racionalidade econômica permeie a ideia de uma educação para a competitividade, não se pode ignorar uma concepção social da educação, como promotora da cidadania, aquela direcionada à emancipação do aluno e à ampliação e igualdade das oportunidades educacionais.


Reportagem de Capa

Uma das possibilidades de superar essas diferenças existentes na educação reside na integração entre o ensino e o trabalho, a chamada educação politécnica. Por meio desta forma de ensino, o ser humano pode se desenvolver numa perspectiva abrangente, em todos os sentidos. Conforme o pensador Karl Marx, o tripé desta educação que reunifica o homem com a sociedade deve ser constituído desde a infância, por meio do ensino intelectual (cultura geral), do desenvolvimento físico (ginástica e esporte), além do aprendizado profissional polivalente (técnico e científico).

Os elementos desse tripé são indissociáveis, uma vez que, pode-se dizer que hoje não existe mais trabalho para quem não mantém a aprendizagem como um processo contínuo. A chamada educação permanente é fundamental em tempos em que o homem, como um ser inacabado, enfrenta mudanças constantes em diversos campos da sociedade como a ciência, a tecnologia, as comunicações e os relacionamentos sociais, nem sempre obtendo as respostas no passado.

Expediente

    Edição março/abril – 2011


    Diretores:

    Marcos Muniz Melo
    Luciana de Andrade Ribeiro Melo

    Editora Responsável:

    Fernanda Ábila – DRT 8381

    Diagramação:

    Franciele Moreira Braga

    Colaboraram nesta edição

    Ademir Basso
    Alessandra Wajnsztejn
    Aloma Ribeiro Felizardo
    Betina von Staa
    Célia Godoy
    Celso Antunes
    Christian Barbosa
    Dirceu Moreira
    Elisane Fank
    Evelise Maria Labatut Portilho
    Fernanda Ábila
    Francisco Antonio Pereira Fialho
    Joe Garcia
    Laura Monte Serrat Barbosa
    Léa Depresbiteris
    Liany Cavalaro
    Luca Rischbieter
    Lucia Fidalgo
    Lucy Duró Matos Andrade Silva
    Marcos Meier
    Martha Gabriel
    Nadia Aparecida Bossa
    Nilbo Nogueira
    Olga Franco
    Rosemeiry Tardivo
    Rui Trindade
    Teuler Reis
    Thelma Guerra


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Sumário

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Editorial
Edição 22


Caro Leitor

Nesta edição, convidamos você a refletir sobre a questão: “A educação reproduz ou transforma a sociedade?”. Com o objetivo de encontrar a resposta para essa pergunta, trazemos a matéria de capa, que terá sua continuação em nossa 24ª edição, onde buscamos resgatar a relação da escola com o desejo de transformação das crianças e jovens de hoje, uma vez que esta instituição pode torná-los capazes de refletir e olhar criticamente para a sociedade em que vivem.

Para isso, a escola precisa investir em novas formas de levar o conhecimento para a sala de aula, quando o educador pode assumir um compromisso político, dando ao aluno ferramentas para que ele assuma uma postura crítica e não permaneça passivo diante das desigualdades do mundo de hoje.

Embora a tendência do atual sistema educacional brasileiro seja a formação para a competição, não se pode ignorar uma concepção social da educação, como promotora da cidadania, aquela direcionada à emancipação do aluno e à ampliação e igualdade das oportunidades educacionais.

Considerando-se que ainda não há essa igualdade dentro da educação brasileira, percebemos a importância de discutir tal assunto e reservamos espaço ainda neste número para artigos de outros especialista que nos trazem sua opinião sobre a escola como agente de transformação social.

Nosso destaque é Rui Trindade, psicólogo na área de Desenvolvimento da Psicologia e da Educação da Criança, mestre e doutor em Ciências da Educação, que nos revela um pouco de sua trajetória pessoal e profissional, assim como compartilha conosco sua visão sobre as diferenças entre os profissionais da educação no Brasil e em Portugal, sua terra natal.

Nesta edição foram explorados ainda por especialistas assuntos como o fracasso escolar, o papel do coordenador pedagógico na gestão de conflitos e a avaliação na educação profissional. O bullying nas escolas é outro tema abordado nessa 23ª edição: em entrevista à Revista Aprendizagem, a pedagoga Aloma Felizardo discorre sobre essa prática violenta hoje tão recorrente, explicando como a instituição pode evitar ou incentivar ainda mais o bullying dentro de seus domínios. Não deixe de conferir!

Desejamos a todos uma ótima leitura!


Marcos Muniz Melo
Luciana de Andrade Ribeiro Melo


Diretores

Gostaria de  Saber


Como é possível contar histórias na sala de aula?



Ivonete Rosa Benevides – Recife

Durante séculos, a memória de um povo foi perpetuada pelo ato de ouvir e contar histórias. Os conhecimentos acumulados, crenças e histórias foram se tornando um verdadeiro legado da Cultura Popular. Os mitos, as lendas, vieram trazidas pela língua do contador que fazia a história do povo perpetuar, que dava força à palavra e sobrevivência aos fatos. O ato de contar sobreviveu também pelo encantamento da história em si, e também para estarmos vivos, creio eu. Assim como na clássica história de Sherazade que para não ser morta encantava os ouvidos do sultão com suas histórias diferentes a cada dia. E se o Sultão não acreditasse na história dela, ele a mataria. Por isso suas histórias eram cheias de aventura do jeito que o sultão queria viver.

Mas o tempo avançou, as tecnologias vieram e o ato de contar e de ouvir foi sendo relegado como algo que pode ser feito por meios eletrônicos bem mais sedutores na era do compre e na sociedade do consumo.

Mas aqui o que queremos falar é sobre o contar na sala de aula, não como uma atividade pedagógica que ocorre para fazer parte do curriculo escolar, ou para preencher um tempo vazio, mas o contar na sala de aula como forma de conhecimento cultural e aprendizagens múltiplas e principalmente como ato de formar leitor. Um leitor crítico, perguntador e que não se contenta em só ouvir, mas quer também dialogar com as histórias. Que procuram as histórias para enriquecer suas experiências de vida e para ver como vive o outro e como ele, personagem,resolve conflitos como os seus.

Este leitor aqui citado, não é apenas o ouvinte, mas também aquele que conta as histórias. Por isso é importante ressaltar a formação do professor contador de histórias sob o aspecto do desenvolvimento de competências, investindo assim em uma formação continuada desse professor. Uma formação continua e permanente possibilita uma reflexão crítica sobre a prática suscitando muitas vezes na transformação da atuação do docente.

O diálogo com os livros e com as histórias na sala de aula, inclui várias etapas, que passam pelas escolhas dos contos, leituras deles e até mesmo da definição de qual a ligação que você deseja fazer desse conto com os conhecimentos e saberes desenvolvidos na sala de aula. Ou até mesmo introduzir temas polêmicos,ou somente e grandiosamente contar para alimentar a alma, afugentar a tristeza e preencher o tempo com risadas divertidas.

Por isso, contar histórias na sala de aula, é sempre algo bem vindo e nada impossível. Algo que não se acaba, pois o poeta cantou um dia…

“Tristeza, não tem fim… Felicidade sim.” e eu digo “História não tem fim… Impossibilidade sim.”


Lúcia Fidalgo

Escritora; Contadora de histórias;
Pesquisadora da Cátedra
de Leitura da UNESCO-PUC-RJ.

www.luciafidalgo.com