Revista Aprendizagem 2

Capa
Edição 2


Formação de Professores

A qualidade da educação não está apenas nas escolas de ensino básico e médio, mas principalmente nos ambientes universitários

Pepita Pinheiro, 31 anos, concluiu o curso de Pedagogia em julho deste ano e optou pela profissão porque acredita em um ideal: “A educação traz mudanças à vida das pessoas e, através dela, passamos a compreender as condições do País e assim podemos contribuir para que as transformações aconteçam e novos valores sejam criados”. Pepita carrega a energia dos recém-formados e afirma que a escolha de um curso em uma instituição de qualidade é importante, porém “o próprio aluno determina o profissional que será”.

No entanto, em um país como o Brasil, não basta ter apenas boa vontade e dedicação – principalmente com relação à educação. Políticas públicas e investimentos na área são reivindicações constantes dos profissionais do setor. Para a professora Zita Ana Lago Rodrigues, doutora em Educação e pós-doutoranda pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, a descontinuidade de políticas públicas agravam o quadro, “exigindo um redirecionamento das ações e efetivos investimentos, e não meras retóricas midiáticas e emergenciais”. Além disso, a baixa remuneração, elevada carga horária de trabalho e falta de estrutura colaboram para a desvalorização do educador. Mesmo com o discurso dos governantes, e também da sociedade, de que a educação é condição sine qua non para as transformações sociais e formação dos cidadãos, cotidianamente a imprensa divulga números e fatos que colocam em xeque este mesmo discurso.

Edição 2

Sendo assim, a Revista Aprendizagem pautou, como matéria de capa desta edição, um dos assuntos de maior relevância no atual cenário educacional brasileiro: a Formação de Professores. Questões como qualidade dos cursos de Pedagogia e de licenciaturas, perfil dos alunos de graduação, teoria x prática, atividade docente, entre outras, foram debatidas com especialistas, pedagogos, professores, diretores e alunos.

Diploma ou qualidade?

O Ensino Superior é um dos nichos de mercado que mais cresce, surgindo faculdades em praticamente todas as regiões das cidades. Com o mercado de trabalho cada vez mais restrito, as pessoas buscam diferenciais para se destacar – e o diploma de graduação ainda é um deles.

Em meio a essa proliferação de cursos superiores, a relação teoria x prática sofre fortes distorções. Zita Lago afirma que os cursos de Pedagogia existentes não formam o profissional pedagogo com as competências necessárias para a atuação na área da educação. A especialista explica que “nesse processo mercadológico houve uma banalização dos cursos de Pedagogia em detrimento da qualidade, gerando uma formação de profissionais para o campo educativo com déficits acentuados e em descompasso com as abordagens que contemplem os desafios da contemporaneidade, as diversidades e exigências de tal formação que, em conseqüência, não tem atendido às reais necessidades da educação”.

Edição 2

Ariana Cosme, doutora em Ciências da Educação, professora e diretora do Gabinete de Educação Contínua da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (Portugal), complementa afirmando que, na generalidade, os cursos de Pedagogia não respondem às necessidades da formação de profissionais mais reflexivos e capazes de gerar e gerir ações educativas em escolas marcadas pela imprevisibilidade e incerteza. Ariana também alerta para a qualidade dos formadores de professores. “Creio que, dentre muitos problemas, há um que exige reflexão urgente: a defasagem dos discursos pedagógicos dos formadores de professores e as suas próprias práticas de formação”.

Mas como o mercado absorve esses professores egressos? A conclusão de um curso de Pedagogia garante a atuação em uma instituição de ensino? Marisa Pan, diretora de um colégio particular em Curitiba, diz que as horas de estágio precisam ser ampliadas. “A escola é um lugar onde acontecem fatos os mais variados possíveis. E quando o estudante de Pedagogia chega e se depara com toda esta diversidade, fica assustado. Apenas o trabalho diário com essas questões favorece a compreensão da prática pedagógica”. Dificuldades financeiras, de aprendizagem e de relacionamento, pais presentes e ausentes, como também orientação com relação à higiene, respeito ao adulto, entre outras, fazem parte desses mais variados fatos citados pela diretora. E esses acontecimentos cotidianos, encontrados nas escolas, estão distantes dos bancos dos cursos de Pedagogia. “Ainda existe um distanciamento entre o dia a dia escolar e as teorias apresentadas nas faculdades. E precisamos tomar cuidado para alertar os graduandos sobre esta realida”, afirma a diretora pedagógica de uma escola em São Paulo, Silvia Roda Leal. Para ela, o educador precisa estar receptível a essas situações para se aproximar dos alunos e realizar o seu trabalho com eficiência.

Edição 2

Teoria x Prática

A discussão sobre a qualidade da formação dos profissionais da educação não está restrita à Pedagogia, estendendo-se à prática docente dos professores graduados em licenciaturas. Neste ponto, a preocupação entre teoria e prática é ainda maior. Muitos professores dominam plenamente conteúdos de suas disciplinas, mas ignoram a importância do domínio pedagógico. De acordo com Zita Lago, o estágio supervisionado da graduação nas licenciaturas comumente não é bem realizado, influenciando a formação e a prática do professor. “Em muitos casos trabalham-se os conteúdos curriculares pertinentes à matriz do curso, porém não existe a ênfase necessária às questões da formação didática e prática do professor. Poucas são as instituições que conseguem formar um profissional que apresente os conhecimentos específicos e a formação pedagógica adequada”. A pedagoga Rose Mary da Fonseca Santos observa os professores como profissionais com formação teórica e que centralizam esforços no ensino dos conteúdos de suas disciplinas. “A ducação escolar envolve complexidade que um currículo de uma licenciatura não comporta. A ênfase na docência reduziu o peso da formação teórica, resultando na fragilidade dos profissionais da área”, diz Rose. Casemiro Campos, mestre em Educação e chefe da divisão de assuntos pedagógicos da Vice-Reitoria de Ensino de Graduação da Universidade de Fortaleza (Unifor), conta que a relação teoria e prática sempre foi um nó na formação de professores. “É muito polêmico. O discurso sempre foi a busca da unidade teoria e prática, mas o grande problema é como superar as idéias dos currículos aplicacionistas e o coroamento – somente ao final dos cursos – com o estágio”. Ele reforça a opinião de Marisa Pan, afirmando que somente a prática cotidiana na escola forma o professor.

Edição 2

Além disso, o exercício da sala de aula muitas vezes é encarado como uma segunda opção por aqueles que desejavam atuar como físicos, químicos, biólogos, etc., mas não conquistaram espaço no mercado. A frustração é dupla: pela não atuação na profissão que optou e pelodesempenho profissional em determinada área apenas por questões financeiras. Dessa maneira, quem perde é o aluno. Mas também existem professores que casaram a vontade de ensinar e de aprender. Andréa Lavoratto Giovanetti é professora de Biologia desde 1989. A busca pelo conhecimento na área biológica e a continuidade no magistério foram os motivadores para que ela seguisse o caminho da educação. Andréa explica que a desvalorização do professor é um dos fatos para que biólogos, físicos, químicos tenham a licenciatura como última opção. “Isto influencia a qualidade da prática pedagógica. Esses professores não atingem os alunos, pois não sabem como transmitir o conteúdo que dominam”.

Casemiro Campos alerta que o cotidiano escolar faz com que os profissionais de educação assumam criticamente a missão de formar seres humanos. “Para esta missão é necessário formar docentes reflexivos, críticos, investigadores, despertando a permanente curiosidade diante do novo na perspectiva do futuro”.

Desafios

O distanciamento entre teoria e prática colabora para que os educadores enfrentem desafios diariamente. Andréa não esquece de um, em especial, que superou há 17 anos. “Ao chamar a atenção de um aluno, fui questionada pelo próprio estudante sobre a minha atitude e acusada de não saber dar aulas. Aquilo mexeu profundamente comigo e eu mesma me questionei. Foi um grande desafio, que me fez crescer profissionalmente”. Para a professora, a sua experiência demonstra que, além de conhecer o conteúdo, é preciso se aproximar dos alunos. “Hoje, muito mais de como eu ensino, é saber como o estudante aprende e se preocupar com cada um, tendo sensibilidade e visão. Concorremos com MP3, internet, celular. O professor precisa envolver o aluno de tal maneira que, na próxima aula, este venha munido de reflexões sobre o que aprendeu”.

Edição 2

Zita Lago lembra que o perfil do gestor da escola é fundamental para que os desafios escolares sejam superados. “Conforme sua postura e ações, o diretor pode fazer com que os processos sejam eficazes, qualitativos e mais humanizados”. Para o diretor de uma escola pública em Fortaleza, Marcelino Ferreira Brandão, o sistema de escolha dos gestores, mesmo sendo democrático, ainda sofre influências negativas da política. “Ameaças, intrigas, fragilidade nas relações de trabalho e desrespeito ainda permeiam a luta por aquilo que tenho certeza: o processo democrático e a melhoria da educação estão estreitamente ligados”. Marcelino ainda diz que a burocracia, o descaso e a crise de valores da sociedade abalam a educação, propiciando um dos maiores desafios: “aliar a qualidade educacional com a inserção social dos alunos de escola pública”. Marisa Pan complementa afirmando que, aprender a aprender, aprender a ser e, principalmente, acreditar na educação são os grandes desafios. “Todo este trabalho reflete no estímulo o fazer pensar dos alunos, trabalhando o conhecimento e exercitando a crítica em discussões dentro da sala de aula”. É neste caminho que Rui Trindade, doutor em Ciências da Educação e professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (Portugal), expõe o seu ponto de vista sobre o papel dos profissionais de educação: “Os professores devem ser capazes de refletir não só sobre os conhecimentos, mas também sobre o mundo, de cooperar e definir um espaço de autonomia profissional que se constitua como condição da sua responsabilidade como docentes”.

Desvalorização

Edição 2

Apesar de imprescindível para a formação de uma sociedade, a profissão de educador é extremamente desvalorizada – e este é um dos grandes obstáculos na área. Como investir em aperfeiçoamento e alcançar qualidade de vida com o salário de professor? “É notória a baixa remuneração e a desvalorização dos profissionais do magistério em nosso País. Mas também não se pode garantir que maiores remunerações melhorem a atuação e levem à conseqüente melhoria na qualidade na educação”, explica Zita Lago. Mas a especialista alega que existem outros fatores que contribuem para a baixa valorização destes profissionais, como a falta de postura profissional coerente – resultando no baixo comprometimento com algumas ações educativas – os déficits na formação continuada e as condições e ambientes de trabalho altamente defasados.

E, para que os graduandos em Pedagogia ou em cursos de licenciaturas não se formem educadores já desmotivados, é preciso superar essa crise. “É urgente a definição de um programa de indução à formação de professores ou um projeto de incentivo para a carreira no magistério, atraindo os melhores alunos e aqueles com talento para a docência”, fala Casemiro Campos. Para ele, todo este esforço deve ter respaldo por uma política estratégica de melhoria permanente da escola pública, agregada a um plano de carreira que possibilite perspectivas de crescimento profissional, bom salário que permita dedicação exclusiva à escola e tempo para aperfeiçoamento.

Expediente

    Diretores:

    Marcos Muniz Melo

    Luciana de Andrade Ribeiro Melo

    Editor Executivo:

    Marco Antonio Ferraz

    Editora Técnica:

    Sandra Bozza

    Editora Responsável:

    Patrícia Melo – DRT 4490

    Colaboraram nesta edição

    Almerindo Afonso, Ana Ruth Starepravo,
    Andréa Lavoratto Giovanetti,
    António Nóvoa, Ariana Cosme,
    Casemiro de Medeiros Campos,
    Dirceu Ruaro, Egidio Romanelli,
    Elisa Dalla-Bona, Guiomar Namo de Mello,
    Isabel Parolin, Júlio Furtado,
    Lino de Macedo, Lucia Fidalgo,
    Mara Sartoretto, Marcelino Ferreira Brandão,
    Maria Augusta Rossini, Marisa Pan,
    Max Haetinger, Menelau Júnior,
    Miguel Zabalza, Nilbo Nogueira,
    Nilson Machado, Patrícia Melo,
    Paula Vieira da Silva, Pedro Valiente,
    Regina Shudo, Rosani Puia Pereira,
    Rose Mary da Fonseca Santos, Rui Trindade,
    Silvia Roda Leal, Tatiana Riechi,
    Vasco Moretto e Zita Lago.

    Projeto Gráfico e Diagramação:


    Editora Melo

    Assinatura, Publicidade e Vendas

    Endereço: Rua Rolândia, 1281

    Pinhais/PR. CEP 83325-310

    Tel: 41 3033-8100

    Email: comercial@revistaaprendizagem.com.br

    Fale Conosco:

    Releases, comentários sobre conteúdo editorial, sugestões e críticas para a seção CARTA DO LEITOR;

    Depoimentos, relatos para a seção ESTÁ DANDO CERTO;

    Perguntas para a seção GOSTARIA DE SABER.

    Tel: 41 3033-8100

    Email: revista@revistaaprendizagem.com.br

    Cartas: Rua Rolândia, 1281

    Pinhais/PR. – CEP 83325-310

Sumário

    Sumário
Editorial
Edição 2


Caro Leitor

É com imenso prazer que compartilhamos a 2ª edição da Revista Aprendizagem – a revista da prática pedagógica, uma publicação bimestral da Editora Melo que visa atingir os educadores e profissionais de áreas afins de todo o Brasil.

Nesta edição contemplamos, dentre outros assuntos, a Formação de Professores com abordagens que passam pela sua relação pela qualidade de ensino, cursos de formação, e a coerência entre o discurso e a prática, ensino fundamental de 9 anos e outras questões do dia-a-dia escolar e a ação docente.

Ao lançarmos no meio educacional esse veículo de comunicação, reafirmamos uma das nossas propostas que é o de uma formação de qualidade, premissa para a seqüência de nossa missão – exaltar à responsabilidade, o prazer e o orgulho de ensinar e principalmente a “ser”, estabelecendo assim novos limites, reciclando informações e adquirindo cada vez mais conhecimentos.

A caminhada é longa, mas indiscutivelmente válida.

Boa leitura a todos.

Marcos Muniz Melo
Luciana de Andrade Ribeiro Melo

Diretores
Editorial Edição 2

Carta ao Leitor

Esta seção, em especial, representa um espaço singular para nós, pois é o canal direto entre a Revista Aprendizagem e você. Manteremos sempre um contato próximo e verdadeiro, nosso respeito pelo leitor e a responsabilidade com a ética e a imparcialidade direcionarão nossas próximas edições.
Participem, pois este espaço é todo seu. Enviem sugestões, opiniões e depoimentos que possam contribuir para que este veículo de comunicação seja, a cada tiragem, ainda mais expressivo no meio educacional, representando uma nova ferramenta no auxílio diário a educadores, pais e alunos, na longa e abrangente trajetória da educação.

Gostaria de Saber

    Gostaria de Saber

    Já que a verdadeira motivação vem de dentro de cada um, como é possível criar condições para que as pessoas possam se automotivar nas organizações?

    Prof. Roberto – Curitiba – PR

    Ninguém motiva ninguém. Quando diz que “a verdadeira motivação vem de dentro de cada um”, está se referindo à motivação intrínseca. Aquela que nos leva a agir com prazer, com entusiasmo, e que está dentro de nós mesmos.

    O professor que gosta do que faz, que ama seus alunos, que tem orgulho de ser educador – é possuidor de uma grande motivação interna, capaz de exercer o magistério com sucesso e sem estresse.

    Contudo, mesmo esta formidável força interior às vezes perde um pouco de seu vigor, como uma fogueira que dormita e se enche de brasas… Neste momento entram em cena fatores que chamamos de motivação extrínseca, ou seja, aqueles que são fornecidos pelo ambiente externo ou por outras pessoas, e que vão reavivar o fogo meio apagado.

    Por isto, as organizações educacionais têm obrigação de prover estes instrumentos motivadores extrínsecos como: ambiente humano de trabalho positivo e estimulador, instalações físicas e salas de aula limpas e floridas, material didático adequado e moderno, incentivo psicológico como elogios e aprovação, facilidades para se reciclar e preparar melhor as atividades pedagógicas, remuneração digna baseada no mérito e dedicação. Tais condições, por certo, aumentam a auto-estima e competência do professor, levando-o a se considerar um profissional valorizado e um cidadão apto a promover a formação integral das futuras gerações. Teremos então alcançado o círculo virtuoso da automotivação.

    Egídio Romanelli

    Doutor em Psicologia;
    Pós-doutor em Neuropsicologia;
    Professor titular do curso de Medicina da PUC-PR;
    Professor aposentado da UFPR.