Revista Aprendizagem 3

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Edição 3


Aprovar ou Reprovar? Eis a Questão…

Muitos estados brasileiros adotaram como modelo educacional nas escolas públicas, e também em algumas privadas, a aprovação automática. Porém, é fundamental refletir como isto ocorre na prática.

“É um equívoco pensar que privilegiar a aprovação do aluno significa aprová-lo sem a devida condição para a continuidade dos seus estudos”, diz Klein. Ela explica que tal entendimento equivocado tem conduzido ao abandono dos alunos, por parte de alguns professores. E a conseqüência é a permanência desse estudante na escola, sem repetência e sem aprendizagem efetiva. Bedaque complementa afirmando que a aprovação automática só teria sentido se houvesse um trabalho sério de recuperação com os alunos com baixo desempenho escolar. “Isto não é feito. O resultado deste modelo é cruel, pois o que vemos são alguns alunos saindo do Ensino Fundamental semi-analfabetos, iludidos com uma certificação que não os qualifica, na prática, a enfrentar a vida adulta em um mercado de trabalho cada vez mais exigente e voraz”.

Para a aprovação automática alcançar resultados efetivos é necessário que a educação caminhe alguns passos, transformando, principalmente, a postura de professores, alunos e pais. “A aprovação automática representa a possibilidade de um patamar de qualidade e excelência na educação que ainda não alcançamos. Não vejo problemas nesse sistema de ensino, o que vejo como problema sério é a banalização da aprovação, a superficialização do ensino, do material didático, dos recursos destinados à escola, entre outros”. Lúcia Klein aponta outra questão a ser refletida decorrente da aprovação sem o devido aprendizado: a exclusão. “Os alunos permanecem na escola, mas não aprendem e, portanto, continuam sem acesso ao saber socialmente produzido. Essa forma de exclusão, dentro da escola, é tão inconcebível quanto reprovar um aluno sem ter esgotado as possibilidades para ajudá-lo a superar suas dificuldades e atingir a aprendizagem que o qualifica para a progressão nos estudos”.

Mas afinal, o que é mais penoso para a aprendizagem do aluno: ser aprovado automaticamente sem ter realmente aprendido ou ser reprovado sem saber exatamente o que precisa fazer para melhorar? Krames afirma que a resposta está na avaliação como possibilidade de verificar e compreender o nível de aprendizagem do aluno e o êxito, ou o fracasso, das estratégias de ensino. Já Bedaque é bem claro ao responder que não gostaria que o seu filho fosse aprovado sem ter aprendido o mínimo para seguir adiante. “Ainda que a escola não assuma sua parcela de culpa no fracasso escolar, preferiria que meu filho aprendesse a lidar com suas frustrações, pois esta é também uma mola propulsora para o crescimento. Prefiro isto à ilusão de um certificado vazio, sem lastro”.

Expediente

    Diretores:

    Marcos Muniz Melo
    Luciana de Andrade Ribeiro Melo

    Editor Executivo:

    Marco Antonio Ferraz

    Editora Técnica:

    Sandra Bozza

    Editora Responsável:

    Patrícia Melo – DRT 4490

    Colaboraram nesta edição

    Ana Ruth Starepravo, Casemiro Campos,
    Celso Antunes, César da Silva Júnior,
    Egídio Romanelli, Eliana Aloia Atihé,
    Evelise Portilho, Gonçalo Cassins Moreira
    do Carmo, Ilisabet Pradi Krames,
    Isabel Parolin, Júlio Furtado, Laura Monte
    Serrat Barbosa, Lino de Macedo,
    Luca Rischbieter, Lúcia Klein, Marco Antonio
    Ferraz, Marcos Meier, Miguel Santos Guerra,
    Mônica Reis, Nívea Carvalho Fabrício,
    Olga Santana, Patrícia Melo, Paulo Bedaque,
    Pedro Demo, Regina Shudo, Rubem Alves,
    Sandra Bozza, Simone Carlberg, Sonia Küster,
    Tânia Fortuna, Thereza Penna Firme,
    Vasco Moretto, Zan Mustacchi.

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Sumário

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Editorial
Edição 3


Caro Leitor

Não há época mais tensa, nas escolas, do que o fim do ano. Muitos fatores contribuem para a “outubrite”, síndrome nervosa que afeta os educadores a partir de outubro e vai se agravando até dezembro. O fim do ano letivo tem, normalmente, como ingredientes a aprovação ou reprovação dos alunos e suas conseqüências na família, o planejamento pedagógico, a definição das cargas horárias dos professores para o próximo ano, as eventuais demissões e contratações e, ainda,as matrículas e transferências dos alunos. Todos os elementos com alta carga de emoção e tensão. Por isso, as férias ou recesso em janeiro são tão merecidos e esperados pela comunidade escolar.
De todos aqueles fatores, escolhemos “Aprovar ou Reprovar” como mote da reportagem principal deste nosso terceiro número da revista. A razão foi que o contexto de tal assunto abrange várias questões relevantes para toda a escola.

Entre elas ressaltamos o processo de avaliação do aprendizado, a avaliação do trabalho do professor, o conceito que a família faz da escola e do aluno, repercutindo na sua vida escolar e pessoal, atingindo inclusive, a sua auto-estima. A polêmica e a gravidade que envolve o tema ainda o tornam atual e provocante.

Esta nossa edição traz, como novidade, duas entrevistas sobre vários temas educacionais, com o intuito de diversificar assuntos e abordagens. Além disso, as demais seções tratam de temas eminentemente práticos, fazendo jus ao slogan da Revista Aprendizagem, a revista da prática pedagógica.

Contudo, há um mérito que queremos e devemos dividir com todos os nossos leitores e colaboradores. A revista, com apenas dois números de circulação, já ultrapassa a marca de 1000 assinantes! Isso comprova definitivamente o sucesso editorial e a confiança da comunidade educacional no nosso trabalho.

Antes de nos orgulharmos desse reconhecimento, queremos dar crédito a todos os profissionais que colaboram para que esse sucesso seja atingido e externar a certeza que isso só aumenta a nossa responsabilidade e dedicação para construirmos uma revista cada vez melhor.
Boas festas! Feliz Natal! Feliz Ano Novo! Que possamos, a cada ação educativa, contribuir para formar um homem mais ético, num mundo mais justo.

Marcos Muniz Melo
Luciana de Andrade Ribeiro Melo

Diretores

Carta ao Leitor

Esta seção, em especial, representa um espaço singular para nós, pois é o canal direto entre a Revista Aprendizagem e você, participe.

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Gostaria de Saber

    Gostaria de Saber

    Quando os conflitos afetam o processo de aprendizagem?

    Profª. Célia Regina – Cuiabá – MT

    Segundo o Dicionário Houaiss, conflito significa “falta de entendimento entre duas ou mais partes, enfrentamento, discussão acalorada, divergência, oposição”. Um das conclusões que podemos tirar daí é que conflitos, neste caso, perturbam o processo de aprendizagem.

    Eles geram emocionalidade, confronto e disputas em que um lado mede forças com o outro. É possível aprender neste clima? De imediato, acho difícil dizer que sim. Depois, passado um tempo, com “cabeça fria” as pessoas podem refletir e aprender algo com o que aconteceu. Essa seria uma primeira forma de responder à pergunta.

    Dependendo de sua força, o aspecto conflituoso de uma dada situação não é favorável à aprendizagem. O que gerou tais situações de conflito? O que o professor fez para evitar, corrigir, antecipar, enfim, regular as tensões geradas pelo conflito? O que ele pôde retomar para tirar disso uma lição? Em resumo, em sua perspectiva afetiva ou emocional o conflito pode não ser um bom “professor”.

    Consideremos agora, uma segunda perspectiva. Os conflitos em sala de aula, por exemplo, podem ser uma boa oportunidade, criada pelo professor, para gerar uma discussão sobre um tema. Quem está a favor? Quem está contra? Quais são os argumentos que cada lado apresenta? Como considerar os aspectos positivos ou negativos de cada um deles? Como aprender a argumentar, discutir, tomar decisões, enfrentar problemas e a insuficiência imediata dos meios de solução? Como superar conflitos em favor de algo melhor? Como definir e obedecer a regras favoráveis a um bom debate?

    O fato é que em uma sociedade livre e democrática como a nossa pretende ser, as pessoas têm direito de pensar de um modo diferente. Têm, também, a responsabilidade de apresentar argumentos ou provas de que sua posição é melhor e, mais que isso, se submeterem ao que foi decidido no final. Ou seja, em uma perspectiva cognitiva, conflitos podem ser uma excelente oportunidade se o professor souber fazer um bom manejo desta situação, ou seja, se os alunos aprenderem a discutir, divergir e, principalmente, saberem pouco a pouco construir um conhecimento coletivo. Nesta segunda perspectiva, conflitos podem afetar positivamente o processo de aprendizagem.

    Lino de Macedo

    Mestre e Doutor em Psicologia;
    Professor Titular de Psicologia do Desenvolvimento
    no Instituto de Psciologia da USP;
    Autor e Co-Autor de Livros na Área.