Revista Aprendizagem 1

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Edição 1

Avaliação na Educação

Como, quanto, o que os seus alunos aprenderam no bimestre passado?

Estas e muitas outras questões rondam o assunto Avaliação – tema discutido com intensidade entre profissionais da Educação. Mas qual o significado de avaliar o aluno? O que isto representa para você, para o estudante e seus pais?

A Revista Aprendizagem conversou com cada um deles e escutou opiniões que muitas vezes representam pontos de vista diferentes, mas ao mesmo tempo com a mesma conclusão: há distintas maneiras de avaliar a aprendizagem do aluno, mas sempre com o objetivo de investigar resultados alcançados, dificuldades, recursos e condições dentro deste processo. O que diferencia são os valores fornecidos aos métodos para a aplicação da avaliação. Rafaela, Caroline, Oscar e Nestor são personagens (reais) desta matéria e que ilustram o que é conviver com esta prática – direta ou indiretamente.

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Rafaela Salani Nogueira é uma adolescente de 15 anos que cursa o primeiro ano do Ensino Médio em uma das mais tradicionais escolas particulares de Curitiba/PR. Caroline Caldeira de Andrade Perdeneiras é administradora e mãe de uma pré-adolescente de 11 anos. Oscar Tavares da Mota Filho é empresário e pai de uma estudante de 16 anos que se prepara para o vestibular. Nestor de Souza é professor de História e Geografia há 10 anos e atua em uma escola pública do Paraná – leciona para, em média, 30 alunos/turma do Ensino Fundamental e Médio. Todos apresentam seus olhares sobre a avaliação – alguns convergentes, outros nem tanto. E, para discutir e aproximar a teoria e a prática, a Revista Aprendizagem procurou os especialistas Cipriano Luckesi, doutor em Educação pela UFBA (Universidade Federal da Bahia); José Eustáquio Romão, doutor em Educação e História Social pela USP (Universidade de São Paulo); Thereza Penna Firme, PHd em Educação e Psicologia da criança e do adolescente pela Universidade de Stanford (Califórnia/ EUA) e Sônia Küster, psicopedagoga e mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

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O que é avaliação?

A verdadeira avaliação deve ser útil, viável, ética e precisa. Esta é a afirmação da Profª. Thereza Penna Firme, que diz que este conjunto integrado deve alcançar o seu grande propósito: “promover o desenvolvimento e o aperfeiçoamento do indivíduo, programa, instituição, sistema e da sociedade em geral”. O Profº. Cipriano Luckesi complementa ao dizer que avaliar é investigar a realidade dos resultados de uma determinada ação. “No início de qualquer ação temos metas; a avaliação subsidia chegar aos resultados desejados na medida em que diagnostica o que está ocorrendo e, por isto, aponta para a possibilidade de correção das ações”, explica Luckesi.

A mãe Caroline Perdeneiras define a avaliação como um estímulo para o estudo e uma maneira para que a criança aprenda a se concentrar. Para ela, a prova tem grande colaboração na disciplina e no ritmo de estudo das crianças, pois “a avaliação conceitual parte do pressuposto de que a criança tem o hábito de estudar sempre. E os alunos que não têm este hábito não alcançam um bom resultado, pois precisam de um estímulo”. Para a Profª Sônia Küster a escola deve utilizar as provas como um instrumento para ensinar estratégias de estudo, estabelecer metas a serem alcançadas e valorizar progressos individuais. Já para a Profª Thereza Penna Firme a eliminação das provas, conseqüentemente das notas, pode ajudar no processo de inclusão na aprendizagem, pois, para ela, a nota dá margem para comparações. “O importante para o aluno é saber se está crescendo e melhorando e o que precisa fazer para melhorar”.

Caroline acompanhou algumas experiências de sua filha em escolas com diferentes metodologias referentes à avaliação. Um dos colégios tinha como prática a avaliação conceitual e, para a administradora, com a exclusão da prova o professor não oferece um objetivo exato para o aluno. “Por exemplo, quando a criança sabe que na semana seguinte terá um teste ela já se programa e começa a estudar”. A estudante Rafaela também acredita que, sem as provas, os alunos ficariam relaxados. “Muitos estudam por causa das provas, pois é uma forma de aprender a estudar. É claro que existem alunos que estudam por conta própria, mas são poucos. Por isto os testes ajudam a aprender”. O Profº José Eustáquio Romão concorda que os exames são um bom instrumento de avaliação. Para ele, os problemas não estão vinculados aos instrumentos, mas ao uso que se faz deles – como castigar, punir ou premiar. “Uma prova pode ser muito boa para diagnosticar determinado desempenho ou conhecimento”.

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No entanto, de acordo com o Profº Cipriano Luckesi, muitos pais acreditam que avaliar sem as provas é o mesmo que não utilizar instrumentos de coleta de dados sobre o desempenho do educando e, conseqüentemente, não haverá rigor no acompanhamento de sua aprendizagem. “Esse é um engano de compreensão”.

Prova ou trabalho?

A educanda Rafaela conta que, a partir deste ano, toda quarta-feira o colégio aplica dois testes com o argumento de preparar os alunos para o vestibular. Na escola da fi lha de Oscar Tavares não é diferente – além das avaliações escritas, todos os sábados ela enfrenta um simulado. Para o pai, isto é apropriado, principalmente por causa do vestibular. “Desta maneira, a minha fi lha não precisa fazer cursinho”. A Profª Sônia Küster afi rma que esta estratégia de avaliação faz com que os exames assumam a função de reelaboração dos conteúdos trabalhados. “Considero isto coerente, pois aos poucos a prova deixa de ser um ‘bicho de sete cabeças’, fazendo parte da rotina”.

Na opinião de Rafaela, além das provas é necessário que os alunos desenvolvam trabalhos individuais e em grupos. “Temos muito conteúdo para estudar toda semana, precisamos de tempo para se organizar. Além disto, estou sentindo falta dos trabalhos”, diz. Um dos motivos deste sentimento é o fato pelo qual os trabalhos motivam o autoconhecimento e o inter-relacionamento com colegas e, principalmente, com o professor. Em suas avaliações, o Profº Nestor de Souza vai além das provas, trabalhando em sala de aula com notícias de revistas e jornais, vídeos e filmes. “Procuro filmes que estejam relacionados ao conteúdo que estou transmitindo. Ou então seleciono notícias para discutir questões de geografia”. Para o professor, isto motiva as crianças a buscarem o conhecimento.

A Profª. Thereza Penna Firme explica que trabalhos em grupo, portifólios, demonstrações e outros recursos diferentes da prova são essenciais para conhecer a realidade de cada um. “O registro e as anotações são muito mais significativos. O conceito de cada aluno emerge naturalmente”. Ela ainda complementa afirmando que o importante é o reconhecimento, o elogio, a consolidação da auto-estima na busca do aperfeiçoamento contínuo.

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Reprovação

“Tenho horror só de pensar em reprovar”, exclama Rafaela quando é questionada sobre o assunto – ainda muito presente no pensamento de alunos, professores e, principalmente, dos pais. “É completamente necessário. Se a criança não tem maturidade para aprender aquilo que foi proposto no ano, ou não teve dedicação suficiente, não pode passar para frente”, fala Caroline. Porém a Profª Thereza Penna Firme é categórica: “a reprovação é uma medida absurda sem qualquer fundamento pedagógico. É uma agressão ao desenvolvimento integral do aluno. É uma decisão que fere a auto-estima, apesar das ‘boas intenções’ do professor”. O Profº. Cipriano Luckesi questiona qual a função de reprovar um aluno sendo que, o que interessa, é que aprenda e se desenvolva. Para ele, “reprovação tem a ver com a incapacidade de investir, tanto de forma institucional como pessoal, na busca dos melhores resultados da aprendizagem dos nossos educandos. Em sã consciência, ninguém age para obter insucesso em uma ação; só na educação escolar isto ocorre”. Já o Profº José Eustáquio Romão argumenta que, na educação básica, não tem sentido reprovar e nem aprovar. “A avaliação é para saber se a pessoa aprendeu ou não”. Em meio a estes pontos de vista, a adolescente Rafaela aponta outro caminho. Para ela, hoje em dia só reprova quem quer. “São aqueles que não querem nada com nada, ou deixam tudo para a última hora”, explica.

Entretanto quando a reprovação acontece devido a um resultado negativo em apenas uma matéria, Caroline e Rafaela concordam que esta decisão deveria ser repensada. “O importante é acompanhar todo o processo e entender onde está a dificuldade da criança”, fala Caroline. É o que afirma a Profª Thereza Penna Firme, que diz que todo esforço deve ser concentrado em recuperar o aluno durante o seu processo de aprendizagem para evitar a experiência desnecessária do fracasso escolar.

Prof.º Cipriano Luckesi

Doutor em Educação; Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação de Universidade Federal da Bahia; Autor de Livros na Área.

Prof.º José Eustáquio Romão

Graduado em História; Doutor em História Social e em Educação; Professor do Curso de Mestrado em Educação de UNINOVE – SP; Autor de Livros na Área.

Profª Thereza Penna Firme

Mestre em Psicologia Educacional; PhD e Mestre em Educação e Psicologia da Criança e do Adolescente.

Profª Sonia Küster

Pedagoga, Pscicopedagoga, Mestranda em Educação, Presidente da ABPp Seção Paraná Sul.

Expediente

    Diretores:
    Marcos Muniz Melo
    Luciana de Andrade Ribeiro Melo

    Editor Executivo:
    Marco Antonio Ferraz
    Editora Técnica:
    Sandra Bozza
    Editora Responsável:
    Patrícia Melo – DRT 4490

    Revisoras:
    Eliana Braga Aloia Atihe
    Elizangela Grigoletti
    Maria Bernadeth F. Koteski

    Colaboraram nesta edição

    Ana Ruth Starepravo,
    Bárbara Bozza Martins,
    Branca Jurema Ponce, Celso Antunes,
    Celso Sisto, Cipriano Luckesi,
    Charles Hadji, Dirceu Ruaro,
    Emília Cipriano Sanches,
    Emmanuel Marinho,
    Haryanna de Lima Lobo,
    Isabel Parolin, Jaime Zorzi,
    José Eustáquio Romão,
    José Leopoldo Vieira, Júlio César Furtado,
    Luca Rischbieter, Léa Depresbiteris,
    Marco Antonio Ferraz, Marcos Meier,
    Marilia Ferraz, Miguel Santos Guerra,
    Patrícia Melo, Pedro Demo,
    Regina Shudo, Rubens Wajnsztejn,
    Sandra Bozza, Saul Neves de Jesus,
    Thania Asinelli, Thereza Penna Firme,
    Vasco Moretto e Vicente Assencio.

    Projeto Gráfico e Diagramação:

    Editora Melo
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Sumário

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Editorial
Edição 1


Caro Leitor

Temos o prazer de compartilhar o lançamento da Revista Aprendizagem – a revista da prática pedagógica, uma publicação de Educação, indexada, com linguagem acessível, porém, sem preterir a seriedade e o rigor científico dos temas abordados.

Visa atingir, bimestralmente, educadores em geral e profissionais de áreas afins, objetivando criar um espaço onde diferentes discursos teçam um pano de fundo para se refletir ações educacionais.

Esta revista ainda se destaca por reunir um Conselho Editorial e Colaboradores de primeira linha, com profissionais do Brasil e do exterior, conhecidos por suas competências teóricas e práticas na área educacional, que endossaram prontamente este audacioso projeto da Editora Melo, a mais nova empresa do Grupo Futuro – ao qual também pertence a Futuro Congressos e Eventos, responsável há 14 anos pela promoção e organização de inúmeros eventos educacionais em todo o Brasil.

Para seu lançamento, a Revista Aprendizagem elegeu um dos temas educacionais mais polêmicos: a avaliação e suas conseqüências na formação do sujeito, desvelando o que especialistas, alunos, pais e professores pensam sobre esse assunto.

Contemplando outros temas correlatos, matérias de diferentes áreas contribuem para a reflexão sobre necessidades e tomadas de decisão acerca de aspectos que tanto instigam como angustiam professores e pais na formação do educando. Certos de estarmos contribuindo para a construção de um novo tempo, agradecemos a todos que acreditaram e apoiaram esta idéia.

Marcos Muniz Melo
Luciana de Andrade Ribeiro Melo

Diretores

Gostaria de Saber

    Gostaria de Saber

    A tarefa de casa diária é obrigatória e sinal de qualidade de ensino?

    Profª Sônia – Porto Alegre – RS

    Nenhum procedimento ou instrumento é, em si mesmo, sinal de qualidade no ensino e nem garantia de aprendizagem. A qualidade e a excelência são encontradas na intencionalidade e na forma: Para quê? Para quem? Quando? Como ensinar? Todas essas questões, por sua vez, devem estar submetidas a uma visão de homem, de mundo e de educação. Com essa afirmativa, estou dizendo que uma aula pode ser mediada utilizando, como instrumentos de apoio, apenas o quadro, giz, papel e lápis, e constituir-se em uma aula inesquecível. Mas também pode acontecer o contrário: o professor ter como instrumentos de apoio materiais muito sofisticados, como computador, jogos eletrônicos e a aula não atingir o seu verdadeiro objetivo que é o de provocar aprendizagens significativas.

    Professora, perceba que eu, intencionalmente, repeti “instrumento de apoio”. Isso ocorreu para enfatizar que eles não garantem a aula exitosa e para provocar a reflexão de que a qualidade só pode ser encontrada nas pessoas que produzem e buscam qualidade.

    Nessa direção de pensamento, encontra-se a “tarefa de casa”. P0ara que ela se constitua como um dos instrumentos que irão garantir excelência e qualidade no ensino e na aprendizagem, deve partir de uma direção/objetivo bem claro ao professor. Deverá também estar explicitada de forma que o aluno tenha condições de resolvê-la e na medida certa para garantir reflexão e aprendizagem ao aluno. Vale a pena lembrar que a tarefa de casa é para ser feita em casa e pelo aluno. Os professores devem corrigi-la para dar a devida importância ao trabalho. Os pais, por sua vez, necessitam garantir o espaço e o apoio adequado ao sucesso da tarefa, contudo, jamais fazê-la pelo aluno. Um dos objetivos de tal atividade é provocar autonomia, e o que não se deseja é que se torne mecânica, estressora e desgastante.

    Para finalizar, a tarefa de casa faz parte de um grupo de responsabilidades do aluno em seu papel de sujeito que aprende. Assim, os resultados não serão encontrados na periodicidade e volume, mas na repercussão positiva no repertório do aprendiz.

    Isabel Parolin

    Mestre em Psicologia da Educação;
    Psicopedagoga Clínica Credenciada pela ABPp;
    Autora e Co-Autora de Livros na Área.