Revista Aprendizagem 15

Capa Edição 15

Encantamento, paixão e prazer
Limites e Horizontes na Educação Brasileira.

Em plena geração do Google (entre outros sites de busca na internet menos populares), o conhecimento é entregue de bandeja ao aluno. Está ali, na tela do computador, pronto para ser devorado. Mas onde entra, nesse cenário, o papel da escola em fazer o aluno saborear o saber, encantando-se e sentindo prazer em aprender?

A facilidade proporcionada pelas inovações tecnológicas exige claramente que o professor “corra atrás do prejuízo”, que use sua criatividade, aliada às inovações dos novos tempos, para resgatar o interesse do aluno pelo conhecimento.

Mas o que leva a tamanho desinteresse? É fato que as crianças e jovens de hoje dão mais importância ao ter do que ao saber, influenciados pela mídia e pela sociedade do consumo. O conhecimento é deixado de lado como algo não tão importante para se tornar uma pessoa de sucesso e, com a desvalorização do saber, a figura do professor foi perdendo prestígio, assim como foi sendo desrespeitado pela sociedade e, consequentemente, pelo aluno. É uma tarefa quase impossível para o educador se ver estimulado a enfrentar sua plateia indiferente e desinteressada.

Esta edição da revista Aprendizagem traz à tona o tema encantamento, paixão e prazer na educação brasileira, sentimentos que estão passando longe da escola nos dias de hoje. Mas, afinal, o que o professor pode fazer para despertar esses sentimentos nele mesmo e, consequentemente, no aluno? De acordo com Júlio Furtado, Doutor de Ciências da Educação, Mestre em Educação, pedagogo e psicólogo, o prazer da aprendizagem é o prazer da conquista, da superação do desafio. “É um prazer fruto de esforço, de trabalho, de construção. Não podemos confundi-lo com o prazer ‘fácil’ dos deleites da vida.” A visão do psicólogo e Mestre em Educação Marcos Meier sobre o prazer na educação segue o mesmo viés. Ele acredita que há um certo equívoco na ânsia que se tem pelo prazer, pois nem toda tarefa traz esse sentimento por si só, mas sim o prazer da realização pelo esforço desempenhado. “Há coisas que simplesmente precisam ser aprendidas pelos alunos, com ou sem prazer. Mas aprender, certamente os tornará melhores…”, acrescenta Meier.

No entanto, a atual geração de alunos não se encaixa nos moldes do ensino tradicional, buscando sempre o prazer em todas as atividades que executa. A educação formal ainda exige disciplina por parte do aluno e determina regras, incluindo-se leituras obrigatórias e outras tarefas escolares, todas elas relacionadas à falta de prazer. E, ainda, ao perceber que o conhecimento adquirido na escola, por meio do ensino formal, não vai ser útil na vida prática, o aluno se vê desestimulado a aprender. Isso se confirma pelo prazer evidente que os estudantes sentem no intervalo, unanimemente seu momento preferido na escola, quando podem fugir às regras e à disciplina da sala de aula, interagindo e sociabilizando com os colegas, podendo também trocar informações úteis para a sua vida, sem limitações.
Portanto, o excesso de regras e a falta de relação das disciplinas com o cotidiano do aluno levam a um desinteresse cada vez maior. Esse desinteresse leva também à falta de respeito às regras da escola e ao professor. Tal comportamento não é ocasionado somente pela metodologia de ensino, mas também se deve a nossa própria cultura. O fato de muitos pais não acompanharem a vida escolar dos filhos provoca nos alunos uma visão deturpada da própria escola: a instituição não é mais vista como um espaço de desenvolvimento e crescimento pessoal, mas como mais um produto de consumo ao seu dispor. Essa imagem se reflete diretamente na figura do professor. Meier compara: “Um professor no Japão é altamente respeitado. Um professor no Brasil é visto como um coitado.”

Expediente

    Diretores:

    Marcos Muniz Melo
    Luciana de Andrade Ribeiro Melo

    Editora Responsável:

    Fernanda Ábila – DRT 8381

    Diagramação:

    Franciele Moreira Braga

    Colaboraram nesta edição

    Berenice Romanelli
    Casemiro Campos
    Celso Antunes
    Cezar Braga Said
    Dirceu Ruaro
    Egídio Romanelli
    Fernanda Ábila
    Francisco Aparecido Cordão
    Guilherme Romanelli
    Irene Queiroz Marchesan
    Isabel Parolin
    Jaime Zorzi
    José Pacheco
    Júlio Furtado
    Lúcia Fidalgo
    Marco Ferraz
    Marcos Meier
    Maria Tereza Maldonado
    Max Haetinger
    Miguel Santos Guerra
    Nilbo Nogueira
    Olga Franco Garcia
    Paulo Bedaque
    Pedro Demo
    Sandra Bozza
    Vasco Moretto
    Zita Lago


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Sumário

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Editorial
Edição 15


Caro Leitor

Podemos caracterizar o século no qual nascemos como o século do desenvolvimentismo, do avanço das ciências, da conquista espacial, da corrida armamentista, da informatização, da globalização, do desencantamento do mundo, do individualismo, do hedonismo, do consumismo,…

E cá estamos nós, seres nascidos no século passado a educarmos crianças e jovens para o presente e o futuro.

Somos uma geração que vive uma crise paradigmática… Desfrutamos, mas também questionamos o avanço, nunca dantes ocorrido em nenhuma esfera do conhecimento na história da humanidade, como nos últimos 50 anos…

Percebemos a necessidade de outros valores, não apenas que alicercem nossas práticas profissionais, nossas vidas e, ousamos acreditar, também o mundo.

A modernidade não mais nos basta… Desejamos relações mais horizontais; políticas, efetivamente, públicas; sustentabilidade, justiça social; que os sentimentos de ética e de estética sejam presentes em nossos fazeres, em nossos cotidianos, em nosso mundo…

Reconhecemos a falência de vários modelos e por isso, também somos nós, educadores, seres atrevidos e, muitas vezes, também utópicos… Acreditamos na educação como um ato amoroso e, até mesmo, de sedução. Pensamos a escola, como um espaço de encantamento, paixão e prazer…

E como construirmos tudo isso sem desejarmos quimeras?

Nesta edição da Revista Aprendizagem, dentre os diversos temas apresentados, destacamos algumas reflexões a respeito dos desejos, encantamentos e prazeres que permeiam a educação; reflexões estas que, com certeza, irão colaborar para ações em prol de um mundo mais justo e melhor e, sobretudo, com pessoas mais felizes.

Boa Leitura!

Marcos Muniz Melo
Luciana de Andrade Ribeiro Melo
Diretores

Gostaria de Saber
Gostaria de Saber

Alterações da fala podem influenciar na aprendizagem?

Aparecida de Castro de Paula – Paraná

A comunicação é um dos aspectos mais importantes na vida e tem o poder de marcar a pessoa nos aspectos individual, profissional e relacional. Alterações da fluência, da voz, da audição, da linguagem e da fala são alguns aspectos que podem comprometer em graus variados a qualidade da comunicação.

Aproximadamente 6% das crianças têm problemas de fala e linguagem, dessas a maioria não apresenta nenhuma outra dificuldade de desenvolvimento. Ao ingressar na escola, essas dificuldades poderão trazer problemas com relação à capacidade de ler e escrever, socialização, comportamento e desempenho escolar.

Crianças que falam errado apresentam mais dificuldades de comportamento tais como hiperatividade e problemas de conduta. As com problemas crônicos têm prejuízos também na dinâmica familiar. As alterações de fala e linguagem são relacionadas aos problemas de alfabetização, às habilidades de leitura e escrita, à capacidade de soletração, dentre outras habilidades escolares.

Além dos efeitos negativos sobre a alfabetização, as alterações de fala e linguagem podem trazer prejuízos nos aspectos educacionais e ocupacionais.As pessoas com tais alterações apresentam maior dificuldade para se comunicar e serem compreendidas, por isso permanecem isoladas. Quase sempre a autoestima e autoimagem ficam afetadas. Crianças que não falam bem sofrem constrangimentos com “gozações” constantes, ficando mais inibidas e retraídas. Esses fatores acabam por prejudicar a aprendizagem e a criança se vê como possuindo um “problema” o qual não consegue resolver ou mesmo compreender.

Há inúmeros estudos realizados com indivíduos que falam errado. Tais estudos analisam o impacto das alterações da fala durante a vida escolar e mostram que a fala alterada influencia negativamente a qualidade de vida, interferindo na performance acadêmica e nos relacionamentos com os professores e colegas de classe e, futuramente, diminuem as oportunidades de emprego e as chances de promoção ou aumento de salário.

Os problemas mais comuns observados em crianças, durante a alfabetização, são as alterações da linguagem as quais interferem diretamente no processo de atenção e de aprendizagem. No entanto, os problemas da produção articulatória da fala em si nem sempre são observados pelos professores.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 10% da população tem alguma dificuldade que interfere na aprendizagem escolar. Quantas deste percentual não seriam crianças portadoras de alterações de fala e que poderiam ser identificadas, encaminhadas e tratadas, evitando que suas dificuldades venham a se avolumar e tenham um efeito cascata sobre suas possibilidades futuras?

Todos os profissionais que trabalham com crianças, principalmente durante a vida escolar, têm o dever de assegurar a aquisição e o desenvolvimento adequado da fala e da linguagem, promovendo melhor aprendizagem, integração, igualdade de oportunidades e o maior desenvolvimento cognitivo, afetivo e social.

Irene Marchesan

Especialista em Motricidade Orofacial; Mestre em Distúrbios da Comunicação; Doutora em Educação; Diretora Clínica do Instituto CEFAC; Autora de vários livros e artigos na área de Motricidade Orofacial.
irene@cefac.br